Fernanda Maia
Pierre e Anatol
[PIERRE]
Soube que ia raptar a condessa
E prometeu casamento também

[ANATOL]
Pierre
Eu me recuso a responder perguntas
Feitas para mim nesse tom

[PIERRE]
Meu corpo contraiu
Ficou tomado de fúria
Tomei seu colarinho bem nas minhas mãos
E com raiva eu o chacoalhei
Até ver dentro dos seus olhos pavor e medo
Eu sou capaz de matar você

[ANATOL]
Isso é desumano
Para, me solta!

[PIERRE]
Seu canalha, miserável
Eu não sei o que me impede de matá-lo
Moer sua cabeça assim
Prometeu desposá-la?

[ANATOL]
Eu nunca disse isso
Não fiz promessas
Porque...

[PIERRE]
As cartas, devolva já!
As cartas!

Não vou matá-lo
Tá tudo bem

Um: as cartas
Dois: bem cedo, amanhã, saia de Moscou

[ANATOL]
Mas não posso

[PIERRE]
Três: jamais vai repetir o acontecido entre você e a Condessa
Não posso impedi-lo de falar
Mas se tem um pingo de vergonha...

Pierre só caminhou
Sem falar
Silêncio
[ANATOL]
Anatol senta-se à mesa
Treme e torce as mãos

[PIERRE]
Afinal, além do prazer
Que você quer tanto
Existem as outras pessoas
Seu conforto e sua paz
E você destrói uma mulher
Por deleite e por diversão
Procure tipos como a sua irmã
Que não tem nada a perder
Mas mentir pra uma jovem e inocente
Enganar e roubar
Não consegue ver como é cruel?
É como bater em um ancião

[ANATOL]
Eu não sei o que é isso
Não conheço
E eu não quero

Você gritou, falou pra mim
Canalha, tudo mais
E pela minha honra
Eu não vou deixar que ninguém fale

[PIERRE]
Quer que eu te suplique perdão?

[ANATOL]
Vai retirar o que falou, hein?
Se quiser que eu me renda a você

[PIERRE]
Certo, eu retirei
Eu retirei
Eu lhe peço que perdoe
E se quiser
Leve pra viagem

[ANATOL]
Anatol riu
O sorriso de ironia e adulação
Que Pierre sempre viu em Hélène
Tão cínico

[PIERRE]
Que sangue do mal!

[ANATOL]
Depois Anatol foi
Pra Petersburgo